Os Guarani Mbyá - Vherá Poty & Danilo Christidis

Assim como as flores que atraem os pássaros e os insetos, possibilitando a formação de frutos e sementes que germinarão novas plantas, as belas palavras dos meus avós encantam meu pensamento: cores harmoniosas, aromas agradáveis e saboroso néctar. No chão batido dos pátios ou no interior de nossas moradas, nos sentamos ao redor do fogo que nunca se apaga – há sempre alguém alentando as chamas inspiradoras com sopros e pequenos galhos –, e realçados pelas labaredas ouvimos, junto com o cocoricar dos galos, o guinchar dos bugios, o crepitar dos gravetos... as falas inspiradas dos anciãos sobre seus conhecimentos, lembranças, experiências. Para nós, os que partilham a existência terrena, a transmissão de conhecimentos tem lugar privilegiado nos aconselhamentos dos velhos, inspirados pelos deuses, pois Eles se enfeitam e enfeitam o mundo. Suas falas são moderadas, OS GUARANI-MBYÁ agradáveis, plenas de cuidado, pronunciadas para fazer brotar bons e belos efeitos, voltadas para o bem-estar daqueles com quem se vive junto. Vivemos baseados nos princípios da generosidade e da reciprocidade, que chamamos de mborayu. Viver na generosidade, compartilhando o excedente é viver com alegria e beleza. Alegrar-se não é divertir-se, é estar tranquilo e saudável, com disposição para algum afazer e para o convívio com aqueles que estão por perto. Um mundo sem parentes é impensável. O simples, o moderado é belo, porã, e divino. Negar o excesso é entendido como um valor prescrito pelos deuses. O que é bonito assim o é porque se assemelha aquilo que é divino ou porque é mesmo divino.

 

Meu nome é Vherá Poty, Relâmpago Florido, sou GuaraniMbyá. Os velhos falam, eu escuto.

Os Guarani-Mbyá são um grupo indígena dos Guarani,  provavelmente de origem amazônica há mais de 3 mil anos, representam uma das maiores populações indígenas do Brasil, cerca de 34 mil pessoas, sendo que aproximadamente 2 mil deles vivem no sul do Brasil, distribuídos em mais de 20 comunidades.

Este livro é resultado de 7 anos de convivência a partir de uma relação de aprendizagens mútuas entre os fotógrafos (não-indígena) Danilo Christidis e (indígena) Vherá Poty. Sua primeira edição foi lançada em agosto de 2015, com uma exposição fotográfica no Museu da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

No livro, há a narrativa visual  que evidencia o sentido do conviver para o povo Mbyá, do amanhecer ao anoitecer. Consigo, traz encartado um caderno com textos de Vherá Poty, que dialoga sobre seu modo de ser e estar no mundo. Quadrilingue, contém textos em Mbyá, Português, Espanhol e Inglês em sua primeira edição já esgotada.